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EVENTOS 2012

Sabrina Marques

(Leer en castellano)

A torinói ló (Béla Tarr, 2011)


A estreia

Não fui assídua em acompanhar de perto as salas comerciais mas foi a estreia de A torinói ló (Béla Tarr, 2011), monumento impossível de sujeitar a qualquer apreciação simples, que mais vive na minha memória deste ano.

Memórias para sempre

Wolfram, A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2011). Agudo grito das profundezas, é uma das mais puramente materialistas obras de arte que alguma vez vi feitas. Carrega em si a força da terra, a fibra dos corpos de trabalho, o esforço e a tenacidade dos homens. É, em simultâneo, uma carta de afeição e de temor à natureza. Inesquecível filme.

4:44 The Last Day on the Earth (Abel Ferrara, 2011) é um épico discreto e, definitivamente, um dos mais importantes filmes da contemporaneidade. Rompe imagens adentro, questiona a sua génese e o seu valor ontológico e, ensaiando caminhos sobre caminhos, planta problemas centrais ao pensar da representação. Com uma vocação epopéica de infinito, cumpre o cinema enquanto uma arte, que só está nas mãos de um punhado de mestres.

Revisitações

Schastye (Alexandr Medvedkine, 1935) é uma sátira intemporal que, partindo da dualidade dos conceitos de indíviduo e colectivo, percebe como à delimitação de identidade/identificação corresponderá o derradeiro e utópico projecto da busca da felicidade.

Inesquecível retrospectiva

A curadoria do programa «United We Stand Divided We Fall», por Federico Rossin para a edição de 2012 do Doclisboa, foi um dos grandes acontecimentos em Portugal, pronunciação da verdade de que ao gesto de programar também corresponde um activismo político.

Surpresas em sala

Esse inclassificável objecto Cesare deve morire (Irmãos Taviani, 2011) sobre o qual jamais saberei articular um juízo conveniente. Saí muda, tivesse eu acabado de testemunhar algo perto da proeza de apartar História e Tempo. A eternidade de um episódio decisivo do império romano, recontado pelas palavras de Shakespeare e (a)percebido em biografias de dissidência, corpos do poder da arte de libertar qualquer cárcere.

Com Amour (2011), chega de Haneke uma surpreendente lucidez no retrato de alguns dos mais fundos traços da condição humana, que assim se lança consideravelmente para diante de qualquer das suas obras prévias.

Chegou ao DVD

Two Years at Sea (Ben Rivers), que pude ver, pela primeira vez, no Doclisboa 2012, já conheceu uma edição pela Soda/Lux. Um filme que acontece como um pequeno milagre, um convite ao exame e à meditação da vida, num lugar recolhido, eremita, que se ilumina pelo gesto e sob a concentração se suspende.

Um livro único

Fantômes du Cinéma Japonais, de Stéphane du Mesnildot é o melhor companheiro para uma imersão no universo de J-horror e K-horror, contextualizado por uma historiografia da imagética e das influências que precedem estes pilares do cinema asiático.

Autor Maior

Definitivamente, o autor que mais me acompanhou este ano foi o sempre jovem Marx, presença a ser devolvida à sociedade pelas vozes dos que o repensam à luz dos imperativos do hoje.

As imagens guardadas

O chão começou a tremer mais em 2012, e as ruas serão o reduto do descontentamento enquanto mais se esforçar a voracidade de uns por curvar a dignidade geral. Guardam-se memórias de união e de luta, visões de ruas nunca antes tão ocupadas, comungados desejos de esperança num amanhã que, para Portugal, vai ainda tão longe.

Com carinho se lembra que no rosto de todos os gatos está um pouco do encantamento que Chris Marker deixou no mundo. Para sempre o seu cinema de semi-ser, de deificação, de tecnocrença e de espectros, um cinema onde um além de sombras é lugar possível de alguma plenitude para o animal-homem. Nas mesmas ruas onde a revolta encontra os seus hinos, reproduzem-se Messieurs Chats.


Sabrina D. Marques (Portugal) é autora do blog CZARADOX e escreve para varias publicações, como CINEDRIO ou La Furia Umana.